Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Feérico

Gosto da tua voz que pouco a pouco apaga meu coração
Última estrela na noite
E do eu suposto na ilusão de possuir-te

Gosto do tempo, fina chuva como lágrimas que sempre escoam
E nunca sabemos para onde
Com que afago feérico ou ferocidade nos deixam
Assim mal-amados mesmo por nós mesmos

Gosto dos riachos que escorrem por nossas carnes envelhecidas
barreiras que caem pelos rios as cruzarem
Nessa música tão breve que cada instante destoa noutro...

Gosto das lembranças debruçadas em não mais estares
De serem parecidas com as do futuro que éramos, menos tristes
Outras horas, nosso tempo
Quase parado de efêmero a voar por sobre nossos dedos

Encontrando-se no baile dos desencontros em que vez por outra
Satisfazemos angústias que não findam

Ainda que ao cabo da noite mais etérea.

sábado, 16 de julho de 2016

Aos Filhos

E encostas lentamente tua cabeça em minha alma e faz dela teu travesseiro,
E adormeces entre um riso ingênuo e um olhar indefeso e faz desnecessárias as palavras...
E fico olhando o infinito que guardamos... particular e obscuro, nossa fome invisível.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Parvo

Como é presunçoso e frágil o nosso entendimento...
Mal compreendes meu coração e já te sentes dona dele.

sábado, 28 de novembro de 2015

De composição



Volto a compor poemas com a luz um pouco escura dos meus olhos castanhos
E a solidão noturna das florestas ao longe do que são as casas
A velha infância deixada em algum subúrbio da alma
Ainda murmura uma prece imperceptível, de quem ora sem lágrimas
De quem se ausenta dos sonhos que éramos um dia
Das folhas outoniças nas vagas agarrando-se antes do chão
Ficaram os olhos de minha mãe à porta, eterna espera de eterno amor
E as paisagens da alma foram perdendo a cor, a flor, a dor, amor
Velhamente — como tudo é velho dentro de nossa estranha solidão!
Volto sem voltar, à espera de um vislumbre que me salve de mim mesmo.

domingo, 8 de novembro de 2015

Ritmo



Depois que a dor da perda perdi
Fiquei mirando teu silêncio
Com olhos que não te contam
Porque a paixão não existe mais
Em mim
Em ti
Em nós
É época de saudade em ritmo miúdo de chuva
Levantando o cheiro da poeira na rua, na gente pensando
O que paira no tempo, pluma indecisa a cair
Como que se agarrando ao vento
Último beijo pausado, emoldurando a vida e suas possibilidades invisíveis
A teimar em quem somos
Rolando da memória do nunca seremos.

sábado, 21 de março de 2015

Poesia



Apenas te olhei,
esperando que coubesses em meu abraço
frouxo de tantos amores perdidos
Como as folhas cansadas
que rodopiam à poesia do vento.