Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

sábado, 13 de agosto de 2011

Um dia

Gosto do som que me afoga displicente, canção ouvida no ônibus da vida de relance, inesquecível riso, farfalhar de folhas ao vento e o coração pulsando ao sabor da atmosfera que de nova tem meus olhos apaixonados e tudo que o mundo seqüestra aos insensíveis à espera de cerveja, de dinheiro ou outra medida inútil para o cansaço do coração.

A hora da fome é linda, fome de ser... de ir ver os velhos amigos, livros, projetos desertados pelo tempo inconstante e efêmero. A fome de comer o inédito como pão pela manhã, e os sonhos nossos de cada dia ainda embrulhados simplesmente para o dia irreal senão pelo sol entreabrindo as janelas, (ir)reverente para que algo seja bom. O bom cansaço do dever cumprido, a boa dor de se sentir humano, o bom sossego depois do trabalho honesto, e a boa música inaudita nas ruas compactas pelo excesso de consumo da propaganda. Gosto de ver o corpo que samba sem música, a voz desafiando desafinada, e os muros retirados para um almoço cheio de conversas fiadas. Ah, quisera eu te dar, um dia, um dia como esse, assim carinhoso, despretensioso, apenas um dia, mas que dele brotasse a vida, amiga.

domingo, 7 de agosto de 2011

Muitas vezes

Admito que perdi, muitas vezes

Com o tempo na mão, recrutei-me

Fiz vista grossa a todo o silêncio luminoso do mundo

Em minha ignorância, perdi a criança que me convidava a sorrir

dos meus grandes problemas inúteis

e fui perdendo

a inocência

o medo

a fé

Deus

(Não sei com que cara olhá-lo de frente

E lhe falar de minhas angústias.)

Fiquei impaciente

Fechado

Calado

Até mesmo comigo

Sou uma espécie social

Sem voz, cumprindo um cotidiano

De trabalho

E prazeres forçados.

Mas vendo-te dormir

Acordei

Maravilhei-me do simples

Estar próximo é melhor que estar em

As estrelas têm uma beleza singular que nos reconhece

Infinitos

Universos

E o dia raiará sem nem um verso de amor.