A hora da fome é linda, fome de ser... de ir ver os velhos amigos, livros, projetos desertados pelo tempo inconstante e efêmero. A fome de comer o inédito como pão pela manhã, e os sonhos nossos de cada dia ainda embrulhados simplesmente para o dia irreal senão pelo sol entreabrindo as janelas, (ir)reverente para que algo seja bom. O bom cansaço do dever cumprido, a boa dor de se sentir humano, o bom sossego depois do trabalho honesto, e a boa música inaudita nas ruas compactas pelo excesso de consumo da propaganda. Gosto de ver o corpo que samba sem música, a voz desafiando desafinada, e os muros retirados para um almoço cheio de conversas fiadas. Ah, quisera eu te dar, um dia, um dia como esse, assim carinhoso, despretensioso, apenas um dia, mas que dele brotasse a vida, amiga.
... Teu silêncio é um achado antigo, em que a poeira sentou, acumulou-se e os dedos escrevem... (Cristino Júnior)
Caro Leitor
Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.
Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,
Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.
E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.
Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.
Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.
sábado, 13 de agosto de 2011
Um dia
domingo, 7 de agosto de 2011
Muitas vezes
Admito que perdi, muitas vezes
Com o tempo na mão, recrutei-me
Fiz vista grossa a todo o silêncio luminoso do mundo
Em minha ignorância, perdi a criança que me convidava a sorrir
dos meus grandes problemas inúteis
e fui perdendo
a inocência
o medo
a fé
Deus
(Não sei com que cara olhá-lo de frente
E lhe falar de minhas angústias.)
Fiquei impaciente
Fechado
Calado
Até mesmo comigo
Sou uma espécie social
Sem voz, cumprindo um cotidiano
De trabalho
E prazeres forçados.
Mas vendo-te dormir
Acordei
Maravilhei-me do simples
Estar próximo é melhor que estar em
As estrelas têm uma beleza singular que nos reconhece
Infinitos
Universos
E o dia raiará sem nem um verso de amor.