Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Amanhã

Como não amar o que se perdeu?
Como conquistar o mundo futuro?
Meu coração confabula um carinho
ainda livre no espaço: esperança.

Ergo-me sem salário,
vomito a cidade
que dorme.

De manhã o capitalismo
vozes de venda de tudo
máquinas e almas tropeçam-se
na esquina, num ritmo gigantesco.

É preciso salvar a cidade
o Estado (da divisão total)
o país e a memória.

Luto

na memória, civilizações inteiras
revolto-me e estou civilizado.

dorme poema, acorda-me amanhã.

Retirada

Retiro-me, fui menino e a chuva era um morno vapor

com cheiro de barro molhado, a tamborilar na telha

Reiterando a vida na terra, com sua claridade de afeto calcário...

Quanto tempo se perde no silêncio de um segundo

Quantos segundos se perdem no silêncio de um dia

Quantos dias se perdem no silêncio de um ano

Quantos anos no silêncio de uma vida?

Tudo é tão pequeno e tão grande....

Remexo lembranças, cacos de louças saltam,

Tardes brancas empalidecem, perdem a cor, desfazem o céu

Que era meu e era teu

E não é mais de ninguém

Olho os amigos, acolho seu desabrigo, recolho-me em silêncio

Estão velhos e simples como a hora

Mas resistem, ainda que resignados, são fortes

Quanto me ensinaram? Quanto desaprendi daquele tempo

E que força os resgata em mim que os absorvo aéreos

casos ridículos vêm contar-me do país dos homens felizes.

Praticamos o mundo em nós se o relembramos, e talvez

Assim o pintemos de outro azul, vernáculo fora dos dicionários,

segundo que não se desbota com o tempo, nem o alcanço

face branca ao nosso lado na noite, respirar de pai dormindo, suspiro

de filho entressonhando seus medos ainda não maduros.