... Teu silêncio é um achado antigo, em que a poeira sentou, acumulou-se e os dedos escrevem... (Cristino Júnior)
Caro Leitor
Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.
Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,
Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.
E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.
Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.
Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Amanhã
Como conquistar o mundo futuro?
Meu coração confabula um carinho
ainda livre no espaço: esperança.
Ergo-me sem salário,
vomito a cidade
que dorme.
De manhã o capitalismo
vozes de venda de tudo
máquinas e almas tropeçam-se
na esquina, num ritmo gigantesco.
É preciso salvar a cidade
o Estado (da divisão total)
o país e a memória.
Luto
na memória, civilizações inteiras
revolto-me e estou civilizado.
dorme poema, acorda-me amanhã.
Retirada
Retiro-me, fui menino e a chuva era um morno vapor
com cheiro de barro molhado, a tamborilar na telha
Reiterando a vida na terra, com sua claridade de afeto calcário...
Quanto tempo se perde no silêncio de um segundo
Quantos segundos se perdem no silêncio de um dia
Quantos dias se perdem no silêncio de um ano
Quantos anos no silêncio de uma vida?
Tudo é tão pequeno e tão grande....
Remexo lembranças, cacos de louças saltam,
Tardes brancas empalidecem, perdem a cor, desfazem o céu
Que era meu e era teu
E não é mais de ninguém
Olho os amigos, acolho seu desabrigo, recolho-me em silêncio
Estão velhos e simples como a hora
Mas resistem, ainda que resignados, são fortes
Quanto me ensinaram? Quanto desaprendi daquele tempo
E que força os resgata em mim que os absorvo aéreos
casos ridículos vêm contar-me do país dos homens felizes.
Praticamos o mundo em nós se o relembramos, e talvez
Assim o pintemos de outro azul, vernáculo fora dos dicionários,
segundo que não se desbota com o tempo, nem o alcanço
face branca ao nosso lado na noite, respirar de pai dormindo, suspiro
de filho entressonhando seus medos ainda não maduros.