Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Revelia



E tudo fica
Fica um pouco do teu olhar
Na camurça de um dia findo
Fica um pai à espera de um filho
fica a vontade de abraçar
e o desejo de sumir
Fica um caco de xícara
Brilhando na escuridão
Fica o medo do esquecimento
Entre as cócegas do amor
E a revolução adiada
Fica uma hora branca
Na calma triste do dia
Fica a história contada
Por meu avô já morto
Fica sempre uma rua, uma casa antiga
Onde brinca tua infância
Fica um amigo indo embora
Fica a esperança
as coisas um dia melhoram
e da bondade fica a ironia
tatuada sobre a dor de ontem
fica a presença eterna de tua mãe
e a voz do teu velho
e o tempo deixa que fiquemos à revelia
enquanto ele passa
depressa
e tudo fica.

Moda

Estão vendendo moda
e medo
modo
de fazer mente:
maconha
mania
mercadoria.
Minta
mesmo que
infeliz.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Aquiescência



Guardo velhos sabores ainda inesquecíveis, travinha no asfalto quando chovia à tarde, depois banho no rio — água morninha... —, os horários vagos que valiam a amizade na praça depois da escola, vôlei na arena e o futebol incansável como a pátria. E hoje parece que esta geração que está aí não aproveita nada disso, não curte, se não no facebook. Quanta animosidade para estar abismado diante de uma tela com luzes coloridas! Esperando que os códigos binários decifrem nossas vidas do outro lado, ou pelo menos respondam às nossas mensagens. E olha, não é nostalgia; não faz tanto tempo assim. É mais como olhar e ver. Eu ainda me divirto jogando Mario kart do N 64. Não porque o jogo é importante, mas porque estão ali os meus amigos, a velha aquiescência que une pessoas tão diferentes em torno de coisas simples e mútuas. Ali está toda uma forma de ver a vida, isso nos faz humanos e com semelhança.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Mentira

A única verdade é mentir,
não para se sobrepor ao enigma de si;
mas para mentar nossa real existência.
A realidade física de tudo é uma grande mentira
de olhos abertos para o sol intraduzível do caos,
princípio de tudo no fim de nada,
hipotético amor na miragem do tempo invisível.
Eu paro
e o milagre da vida cotidiana entra-me o pensamento,
os ouvidos e os olhos e o tato e o olfato
o impossível me espanta a sentir-me.
a realidade física de tudo é fugaz
e fria e alheia de sentido
E o único sentido é mentirmos
nossos beijos traindo nossos amores
nossos próprios pés cheios de estradas impraticáveis
como a nostalgia dos vigias solitários
como a denúncia dos poetas
que buscam palavras novas num signo deserto.

Fera

Desconheço a razão da vida
Posto que, enfim, persevera
e tão triste é ser perdida
- cerrado tempo de quimeras.

Cabe-me a angústia da vida
E não me caibo na primavera
que já ficara esquecida
num adeus que eu nunca dissera.

Ah, outrora! possível vida,
Se eu soubesse o que houvera
Seria fácil a despedida...

E já não traria esta espera
que se vê indefinida:
tão humana vida de fera.

Amigos

Hoje me senti solitário, mas não sozinho, nem vazio, pois eu estava cheio. Solitário de mim. Senti uma sede de amigos mesma de água, de escutar qualquer palavra que assumisse a singularidade humana, ser universalmente único, e quantos únicos em volta! Então refiz meu caminho até aqui, mas na direção contrária: parti do presente e reencontrei vários amigos, inclusive aqueles que nunca mais pude ver. Ou será que é agora que eu caminho contrário daquele que fui?! Pois desfiz tantos planos à procura de mim, deste que hoje se impõe desconhecido de quem fui. "Eu era feliz!" soa em minha mente. Descoberta que me fez mais triste, nostálgico, e também mais humano. Como a faxina do quarto que se vai adiando dia após dia. Hoje foi o dia em que limpei meu coração. Depois veio uma alegria boba. Como um cansaço recompensado, uma música da Legião ouvida depois de muito tempo, um sorriso que não precisou da palavra desculpa e de nenhuma outra para se fazer entender. Pois é isso que são meus amigos: o silêncio entendido.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Finalmente, apoiado sobre a caneta, deixando de lado os superlativos vitais, transcendo o pensamento e dedico-te o conforto de algumas palavras.
Dedico-te a coisa triste que me tem enlevado os sonhos em aterradores carinhos impossíveis.
E teus olhos infantis de bicho do mato tem-se derramado covardemente entre o meu eu confuso que se deixa transparecer.
Não tenha por isso uma carta de amor - o amor as vezes nos deixa vazios - mas apenas a verdade simples e consumada.

Chegada

Quando chegamos, o sol anunciava vida!
O tempo empalidece e apaga mais que as nossas lembranças
de sermos
Vou descer a silenciosa rua do desespero
sem métrica
Para chegar perdido
Como se me achasse ao mar
E deitasse ao chão minha imagem
os braços eternamente cruzados
-queria saber chorar!
como nunca tivesse mentido
como se apenas fugisse para a rua
ou para a lua.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Solidão

Dentro da multidão
solidão
longa
e imensos edifícios não a conseguem esconder
os amigos ficaram distantes
a infância para sempre perdida
o depois do amor
depois de tudo
o corpo só entre os lençóis
entre casas, ruas, cidades que crescem repentinamente
solidão na derrota
e a solidão da vitória,
umidade crescendo nas paredes do meu coração.

sábado, 1 de setembro de 2012

Arquiter

Eu sempre espero que os belos dias voltem.
Mas não como eram...
e sim com o ritmo que lhes empresta meu coração.


Como um bom vinho
Muito mais velhos, mais belos se tornam os sonhos.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Despejo

Depois de uma longa temporada de amor
deseduco-me
volto para mim solitário
querendo prender as lágrimas
do forte que me supunha
desvisto-me
ao frio da noite.

terça-feira, 31 de julho de 2012

E acho bonito ter tristeza e solidão para estar comigo mesmo numa luta igual e desigual. Querendo vencer-me sem ser bandido ou herói.

sexta-feira, 20 de julho de 2012



Embalo-me, bêbado, em teu corpo
pequenino e cheio de gestos
compreendo pouco do coração
paro, paralizando o universo
e palpita em teu cheiro meu sequestro
de suor e defesa e cansaço
quintal limpo
sem saudade
puro como o primeiro beijo
ainda sonhado.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Escombros

As crianças foram encobertas
pela poeira da compreensão das coisas
Penso em mim, penso em ti
E como a alma está cansada do que é tão precioso.

O mais

O mais são c inzas e corpos cansados
Mortos que boiam nas águas da vida.
Ah, não ter um verso para acordar-te
ah, não ser deus para tudo o que eu quis.

domingo, 1 de abril de 2012

Noturno

Queria este poema inconcreto e latente
como uma vontade de partir
para outra hora,
para outro mundo,
para outro amor,
para outro eu.

Inquieto

Em vão minhas mãos procuram
aquele que se perdeu
dentro de amores e faltas
do ser que um dia foi meu.

E era uma calma a infância
a viver, desaprendida
e hoje só restam as lembranças
e estas horas já esquecidas.

Meu coração é augures,
um arquiteto inquieto,
do futuro que sempre muda
as grades de seu afeto.

sábado, 31 de março de 2012

Não te escrevo

Nem sou tu

Nem te escrevo, o que escrevias.

Minha falta, nossas faltas

(terno repintado de tantas ocasiões)

Restam consórcios não abolidos

E medulas e a maneira dos jornais

da fome e da miséria

como flores simples — se é que se pode compor

instantes entre mundos diversos

no desenho de uma flor.

E as mãos imprimem movimento em pálidos cadernos,

Nem livros são... apenas memória

Meu merencório silêncio compõe

a falta dos teus olhos imensos

Nem fui afeito ao amor

Erram por mim os bispos com sua religião,

Os condes com seus monólogos,

As virgens e seus ais,

Os loucos com seus risos

E nem há conserto para o mundo.

Mentimos à espada a nossa fome abstrata.

E eram dois olhos, e mais nada.

Nada, preso na tarde, na história, no muro

de toda procura

À guisa de explicação

para o espetáculo que excede

o mundo aberto em silêncio.

Nem eram mãos aquelas

Nossas

Presas a caminhos perdidos

Mas tão lunar hoje que doem

Imprestáveis de saudade e ternura

Como compor o que sucede a cada momento?

E o coração, e tudo mais cansado...

Nem voz para restituir o que nos roubam as palavras

em silêncio.

Carinho

No coração do meu olhar
há jardins floridos de estrelas,
há carinho,
muita lembrança e ternura.
É indelével o tempo a caminho de tudo.
Meu coração, neste inventário de lutas,
levas pela vida inteira
o carinho de um homem atormentado de ausências.

quarta-feira, 28 de março de 2012

O que me dói

O que me dói é não poder trazer todos os meus amigos sempre comigo...
Não levar minha mãe a todos os lugares bonitos que conheci, onde cheguei...
Não poder mais conversar com meu pai sobre as impressões, mesmo que sutis e bobas, que a vida vai deixando...
Não poder amar em um só momento todos os meus amores
(os muitos que tive e me tiveram),
Não sei se amor eterno quer dizer amor único,
Sei que sou apaixonável e apaixonante
e não tenho medo do futuro se parecer com o passado,
- não sei como se vive de outra maneira!
Afinal a vida é esse silêncio casmurro de saudade
brigando em mim feito poesia pura.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Nada

Nada me move ou me apaixona.
Só há vozes no quintal de sentir.

Impretérito

Amei o presente e o teu rosto -
Tempo bom é sempre pretérito.
Quantas lembranças esvoaçadas tolhem meu coração!
E simplificavam a natureza da vida em dar as mãos.

Embora pretérito, tudo isto é infinito
Mesmo este rosto sério, guarda um menino,
minhas peripércias e meus amores
casam-se neste silêncio secular.

Tu... a que distância eu risonho te revejo!
A beleza e o respeito que traz a ternura.
Sim, vives em mim a mais que o tempo.

És leve e teus gestos serenos
como a alegria das cirandas
e te resgato e eternizo em forma de amor.

Em perfeição

Não há perfeição.
Só este coração coberto de um rito que não é seu.

Verbo que Foge da Boca

Bom, eu me apaixonei.
E me apaixono, ainda e sempre.
Não é verbo que foge da boca
para transformar-se em gesto...
há qualquer contentamento em olhar o vôo
sobre o indefinido do mundo
e meu coração é, então, papel para riscar...

Um dia

Um dia, praticando as alusões de algum autor, partirei
e tua cara branca e fechada,
teu branco silêncio sobre o banco da vida
reivindicará respostas.
Mas eu, cheio de mim e de ti, não mais responderei.
Esquecerás de mim sem me esqueceres.
Viverás os teus dias de glória silenciosa
sem a loucura do amor.

Riso

O amor, quando a gente cresce, produz um riso
e deixa nas mãos inseguras
a procura por outras mãos,
não é infância, mas que ciranda circunda o nosso jardim
e banha as manhãs com a claridade dos gestos petrificados.

O amor, quando a gente cresce, inventa mansões,
contrói casas, delineia as coisas mais simples
e jamais supus, posto que sempre estiveram comigo.
Era preciso que chegasses,
trouxesses teus olhos para junto de mim...
Inevitavelmente: te amei.
Tu me amaste.
Crianças; anjos; vociferações
há muito silentes em orgulho;
canção erguida na estrada dos homens pateticamente completos:
Tu vieste
e, sem aviso prévio,
puseste qualquer coisa como matéria para sonhos
no colo de mim.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Conhecimento

Desconheço-me a sonhar-me outro
Tão qual o primeiro, quase me convenço que sou eu
Mas há tantos sonhos e os gestos tão poucos...
Desiludo-me — vou morar fora de mim!
Viver sem sentir medo, isto que me parece impróprio e tão certo
A vida aos bocados e cabe na minha mão
Em minha mão
Ah, silêncio que desnudo a lembrar-me
Tantas alegrias tidas e perdidas
Que é o coração
Senão este solene titubear entre beijos e noites profundas?
Passa noite, vem dia, vem incólume como uma manhã de domingo em que há paixão
Ao menos nos olhos que te fitam errantes
Ao menos nos gestos que não se abrem, botão de flor, aurora
Para tanto dia
Ao menos nessa certeza que o não dar contenta.
Feliz pelo nada em que sonho ser tudo.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Ruínas

Ruínas de sentir-me, à posição abstrata com que velo teus olhos,
Ilusão de fugir, imposição de ter de viver, assombra-me pensar
Da escotilha do barco que já não há e é sempre, em mim.
Impossibilidade de sentir-me senão da minha maneira,
Ser louco ao menos uma vez para não ter que dar aos meus atos intelecto,
Ser o bastante o gesto encerrar-se no corpo que o produzira.
Não tarda a velha face os jasmins que te procuram,
Não tarda e nunca chega, inconcluso, e fito este meu estar vivendo
Fito os meus olhos tristes e sem lágrimas não ser mais criança
Fito os meus sentidos e longinquamente estares viva
Estarei sempre na antessala, nunca entrarei pela porta a ver-te
Ou a viver o que me propus em sonho, louco e certo como todo sonho o é.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Pretérito Perfeito (para todos os que se foram)

Não desejo que minhas últimas palavras sejam lembranças tristes. Na verdade, gostaria que tivessem a mesma febre do meu olhar perdido diante das belezas que pude contemplar no mundo, eu pequenino em meio ao medo da grandeza de tudo. A inocência com que busquei meu primeiro beijo e a ternura da flor depositada na janela, de madrugada, sem que ninguém soubesse.
Posso exprimir os sonhos que não realizei como uma estrela cadente que perdida e vertiginosa me maravilhou por alguns segundos e pôde refletir em meus olhos o que o meu interior guardava; já será tarde para fazê-los, mas a música que me emprestaram teve a beleza do primeiro amor, sim o meu primeiro amor foi inebriado de sonhos e ele cabia em um poema e em cada silêncio do universo.
Depois de muito caminhar como um peregrino em busca de algo inacessível às palavras, olho para trás e vejo como é bom voltar para casa, desagregado de toda ordem ou capricho, sossegado por poder ser eu mesmo. Como é precioso o tempo, e o quanto pode ser amável a solidão quando não se tem medo dela. Como é precioso o tempo com sua lanterna existencial que nos faz sair da toca e ir à busca do vento, na noite, para poder ver o amanhecer e suas cores múltiplas.
Não quero que meus filhos tornem-se mais velhos que eu, seria como furtar a divindade de suas vidas. Quero ser caduco quando o olhar ou a memória não mais quiserem agraciar-me com seu precioso dom. E a minha língua pátria, de quem tanto fiz uso, possa dizer aos que me sucederem que fui uma espécie de erro bom, que só compreendeu os outros porque em algum momento foi falho e precisou buscar algo melhor, que lhe reconhecesse possível. Isso foi o que mais me comprouve, a afetação que podemos provocar em outros, igual a uma criança desconhecida que nos sorri.

Busca

Nada segue
Por isso, fico
apático, angústia, silente
Querendo que todas as naus voltem aos seus portos
(Menina dormindo entre lençóis brancos)
E que o universo retroceda ao ponto onde paramos o olhar
Ao pé um do outro, sem palavras, mas felizes.

Da Morte

A morte é o universo em transformação.