Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Mentira

A única verdade é mentir,
não para se sobrepor ao enigma de si;
mas para mentar nossa real existência.
A realidade física de tudo é uma grande mentira
de olhos abertos para o sol intraduzível do caos,
princípio de tudo no fim de nada,
hipotético amor na miragem do tempo invisível.
Eu paro
e o milagre da vida cotidiana entra-me o pensamento,
os ouvidos e os olhos e o tato e o olfato
o impossível me espanta a sentir-me.
a realidade física de tudo é fugaz
e fria e alheia de sentido
E o único sentido é mentirmos
nossos beijos traindo nossos amores
nossos próprios pés cheios de estradas impraticáveis
como a nostalgia dos vigias solitários
como a denúncia dos poetas
que buscam palavras novas num signo deserto.

Fera

Desconheço a razão da vida
Posto que, enfim, persevera
e tão triste é ser perdida
- cerrado tempo de quimeras.

Cabe-me a angústia da vida
E não me caibo na primavera
que já ficara esquecida
num adeus que eu nunca dissera.

Ah, outrora! possível vida,
Se eu soubesse o que houvera
Seria fácil a despedida...

E já não traria esta espera
que se vê indefinida:
tão humana vida de fera.

Amigos

Hoje me senti solitário, mas não sozinho, nem vazio, pois eu estava cheio. Solitário de mim. Senti uma sede de amigos mesma de água, de escutar qualquer palavra que assumisse a singularidade humana, ser universalmente único, e quantos únicos em volta! Então refiz meu caminho até aqui, mas na direção contrária: parti do presente e reencontrei vários amigos, inclusive aqueles que nunca mais pude ver. Ou será que é agora que eu caminho contrário daquele que fui?! Pois desfiz tantos planos à procura de mim, deste que hoje se impõe desconhecido de quem fui. "Eu era feliz!" soa em minha mente. Descoberta que me fez mais triste, nostálgico, e também mais humano. Como a faxina do quarto que se vai adiando dia após dia. Hoje foi o dia em que limpei meu coração. Depois veio uma alegria boba. Como um cansaço recompensado, uma música da Legião ouvida depois de muito tempo, um sorriso que não precisou da palavra desculpa e de nenhuma outra para se fazer entender. Pois é isso que são meus amigos: o silêncio entendido.