... Teu silêncio é um achado antigo, em que a poeira sentou, acumulou-se e os dedos escrevem... (Cristino Júnior)
Caro Leitor
Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.
Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,
Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.
E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.
Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.
Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Formalidade
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Novo Natal
Que grande farta era aquela mesa
em que esquecíamos os males de família
e cobríamos de promessas o ano novo.
Esperávamos os parentes de longe
Já sabíamos
que alguns não poderiam vir este ano
(mas mandariam presentes).
O ano passado esquecido
entre anúncios de papai Noel e roupa nova,
brinquedo novo, casa nova,
nova vida nova e luzes coloridas.
As manhãs eram frias
e lembrar põe sentido nas coisas
que banalmente consentíamos.
Vinho, champanhe e família reunida
Tempo de paz.
Essa paz com que se perdoa
e se reata as amizades e se fica mais humano.
E tudo acabava em festa
(depois crescemos, nos afastamos.
Muitos partiram. Faltou dinheiro. Crescemos.
Perdemos e aprendemos)
O mundo gira mais rápido
e diminui o dia, diminui a vida, diminui a gente.
E o humilde ano bate à porta
não o enchamos de expectativas
(e só assim se vive...)
Guardemo-lo, não o enchamos de justiça
(e só assim se é justo...)
O outro se retira austero
com o nosso bocado de esperança frustrada,
com nossas mazelas e lívido suor,
com nosso trabalho e cansaço,
com nosso morno alívio de recomeçar
(e só assim se esquece...)
A mãe está mais triste
(o pai nos deixou)
A irmã começou a trabalhar.
A outra veio morar com a gente.
O outro passou no vestibular.
O emprego de verbos sem sentidos
inclusive os sem ação
põe fragrância na vida desencontrada
sem uma estrela no céu que nos possa conduzir.
E o menino continua no estábulo
Porque não há espaço no coração do rei herodes.
domingo, 20 de novembro de 2011
Quando
Quando estaremos livres da disciplina e do medo de nos machucar, do medo de viver, do medo do nosso anseio de ser livre?
Até quando as regras da sociedade nos serão caras, mesmo sabendo quanta hipocrisia há? Mesmo sabendo que há meninos de rua (menino não precisa de locução adjetiva); mesmo sabendo da fome abstrata do país inteiro e dos famintos que não têm o que comer?!
Até quando o salário do crime será a impunidade e os milhões que alimentam a cultura de que “aqui no Brasil tudo acontece, tudo é normal”?
Quando é que seremos do samba, sem os jornais de amanhã e os mortos nas estatísticas dos acidentes de trânsito?
Quando o amor vai ser mais importante que o trabalho?
Quando ficaremos nos cais sentindo o vento bater em nosso rosto sem nos preocuparmos com o mundo que virá para nossos filhos, sem respirar fumaça e capitalismo?
Quando é que seremos menos covardes e aprenderemos a fazer o que for preciso?...
Quando talvez um dia converter-se em um sorriso
E o valor do homem for incalculável.