Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Novo Natal

Que grande farta era aquela mesa

em que esquecíamos os males de família

e cobríamos de promessas o ano novo.

Esperávamos os parentes de longe

Já sabíamos

que alguns não poderiam vir este ano

(mas mandariam presentes).

O ano passado esquecido

entre anúncios de papai Noel e roupa nova,

brinquedo novo, casa nova,

nova vida nova e luzes coloridas.

As manhãs eram frias

e lembrar põe sentido nas coisas

que banalmente consentíamos.

Vinho, champanhe e família reunida

Tempo de paz.

Essa paz com que se perdoa

e se reata as amizades e se fica mais humano.

E tudo acabava em festa

(depois crescemos, nos afastamos.

Muitos partiram. Faltou dinheiro. Crescemos.

Perdemos e aprendemos)

O mundo gira mais rápido

e diminui o dia, diminui a vida, diminui a gente.

E o humilde ano bate à porta

não o enchamos de expectativas

(e só assim se vive...)

Guardemo-lo, não o enchamos de justiça

(e só assim se é justo...)

O outro se retira austero

com o nosso bocado de esperança frustrada,

com nossas mazelas e lívido suor,

com nosso trabalho e cansaço,

com nosso morno alívio de recomeçar

(e só assim se esquece...)

A mãe está mais triste

(o pai nos deixou)

A irmã começou a trabalhar.

A outra veio morar com a gente.

O outro passou no vestibular.

O emprego de verbos sem sentidos

inclusive os sem ação

põe fragrância na vida desencontrada

sem uma estrela no céu que nos possa conduzir.

E o menino continua no estábulo

Porque não há espaço no coração do rei herodes.

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