Que grande farta era aquela mesa
em que esquecíamos os males de família
e cobríamos de promessas o ano novo.
Esperávamos os parentes de longe
Já sabíamos
que alguns não poderiam vir este ano
(mas mandariam presentes).
O ano passado esquecido
entre anúncios de papai Noel e roupa nova,
brinquedo novo, casa nova,
nova vida nova e luzes coloridas.
As manhãs eram frias
e lembrar põe sentido nas coisas
que banalmente consentíamos.
Vinho, champanhe e família reunida
Tempo de paz.
Essa paz com que se perdoa
e se reata as amizades e se fica mais humano.
E tudo acabava em festa
(depois crescemos, nos afastamos.
Muitos partiram. Faltou dinheiro. Crescemos.
Perdemos e aprendemos)
O mundo gira mais rápido
e diminui o dia, diminui a vida, diminui a gente.
E o humilde ano bate à porta
não o enchamos de expectativas
(e só assim se vive...)
Guardemo-lo, não o enchamos de justiça
(e só assim se é justo...)
O outro se retira austero
com o nosso bocado de esperança frustrada,
com nossas mazelas e lívido suor,
com nosso trabalho e cansaço,
com nosso morno alívio de recomeçar
(e só assim se esquece...)
A mãe está mais triste
(o pai nos deixou)
A irmã começou a trabalhar.
A outra veio morar com a gente.
O outro passou no vestibular.
O emprego de verbos sem sentidos
inclusive os sem ação
põe fragrância na vida desencontrada
sem uma estrela no céu que nos possa conduzir.
E o menino continua no estábulo
Porque não há espaço no coração do rei herodes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado por comentar. Tenha um bom dia!