Sou
uma aberração simples, dessas que se encontram entre as estantes de livros na
escuridão das antigas bibliotecas ou na claridade dos departamentos de CDs e DVDs
onde se empilham os novos Best-sellers do New York Times. Ninguém me conhece porque disto
disso que estão querendo produzir em nossa mente e falo comigo mesmo sobre
coisas insólitas, mas que vejo claramente, algumas, desde a minha infância, como o
perfume que a chuva deixava no ar misturado à poeira das ruas de minha cidade. Era
puro, de uma pureza clandestina e intacta como só as coisas eleitas sem razão o
são. Como o carinho que era ver o pai na rua retornando para casa. Amo essas
lembranças com uma dedicação perene que só os loucos costumam ter. Por isso,
talvez eu seja esta aberração de perdas e carinhos desencontrados. Essa crença
de que há eternidade em tudo e que fomos feitos de pequenas histórias que o
silêncio embriaga de saudades e ritmos atemporais.
Gosto
quando chove e me lembro dos amigos, correndo na PA em direção à beira do rio. Era
uma festa dessas que não se planeja, mas que por serem de coisas contíguas se
tornam as melhores coisas do mundo. Viajo e me perco entre esses alusivos. E me
lembro dos amores, das noites chuvosas em que a solidão parecia partilhar
silêncios intermináveis, sem celulares, faces
ou outras possibilidades de encontro. Que falta boa aquela! E a espera do dia
seguinte, ou talvez da semana seguinte... Gosto dos pores de sol à beira do
cais, quando o tempo começa a ser noite, e na medula do céu ficam restos de sol
casando o calor morno com a tonalidade da aurora, vagamente. Por isso estou
vivo. Hoje que compreendo menos, mas amo mais do que nesse tempo, vejo isso
como uma perfeição que vai pontuando o coração da gente e o enchendo até não
caber no peito e me descubro universal, mesmo na pequena folha seca, morna de
vida, a se desprender das árvores, num silêncio tumular e belo como uma valsa
do tempo que em rodopios e farfalhar nos permite presenciar a vida e a morte
impondo-se e alternando-se, os que se vão para dar lugar a outros e outros e
outros, eternamente... fico sim triste, pois sei que muita gente se foi,
pessoas queridas, pessoas admiradas, gente que eu nem conheci mas que gostaria
muito, canções esquecidas há muito tempo, voltam à memória, teriam lá seus 80
anos, e seus gestos estariam repletos de um sabor acre dos velhos, mas te foste
antes de eu te dizer o suficiente número de vezes “Eu te amo!”. Teriam lá
filhos crescidos, partilhando sorrisos e catarros, velando sonos e contemplando
o que o céu nos dá de mistério e incerteza para a gente ser feliz.