Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Simples aberração



Sou uma aberração simples, dessas que se encontram entre as estantes de livros na escuridão das antigas bibliotecas ou na claridade dos departamentos de CDs e DVDs onde se empilham os novos Best-sellers do New York Times. Ninguém me conhece porque disto disso que estão querendo produzir em nossa mente e falo comigo mesmo sobre coisas insólitas, mas que vejo claramente, algumas, desde a minha infância, como o perfume que a chuva deixava no ar misturado à poeira das ruas de minha cidade. Era puro, de uma pureza clandestina e intacta como só as coisas eleitas sem razão o são. Como o carinho que era ver o pai na rua retornando para casa. Amo essas lembranças com uma dedicação perene que só os loucos costumam ter. Por isso, talvez eu seja esta aberração de perdas e carinhos desencontrados. Essa crença de que há eternidade em tudo e que fomos feitos de pequenas histórias que o silêncio embriaga de saudades e ritmos atemporais.
Gosto quando chove e me lembro dos amigos, correndo na PA em direção à beira do rio. Era uma festa dessas que não se planeja, mas que por serem de coisas contíguas se tornam as melhores coisas do mundo. Viajo e me perco entre esses alusivos. E me lembro dos amores, das noites chuvosas em que a solidão parecia partilhar silêncios intermináveis, sem celulares, faces ou outras possibilidades de encontro. Que falta boa aquela! E a espera do dia seguinte, ou talvez da semana seguinte... Gosto dos pores de sol à beira do cais, quando o tempo começa a ser noite, e na medula do céu ficam restos de sol casando o calor morno com a tonalidade da aurora, vagamente. Por isso estou vivo. Hoje que compreendo menos, mas amo mais do que nesse tempo, vejo isso como uma perfeição que vai pontuando o coração da gente e o enchendo até não caber no peito e me descubro universal, mesmo na pequena folha seca, morna de vida, a se desprender das árvores, num silêncio tumular e belo como uma valsa do tempo que em rodopios e farfalhar nos permite presenciar a vida e a morte impondo-se e alternando-se, os que se vão para dar lugar a outros e outros e outros, eternamente... fico sim triste, pois sei que muita gente se foi, pessoas queridas, pessoas admiradas, gente que eu nem conheci mas que gostaria muito, canções esquecidas há muito tempo, voltam à memória, teriam lá seus 80 anos, e seus gestos estariam repletos de um sabor acre dos velhos, mas te foste antes de eu te dizer o suficiente número de vezes “Eu te amo!”. Teriam lá filhos crescidos, partilhando sorrisos e catarros, velando sonos e contemplando o que o céu nos dá de mistério e incerteza para a gente ser feliz.