Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Acho que nunca se diz



Teu cansaço me absorve, poesia antiga de meus olhos de menino, como a voz da minha solidão poupando as palavras que não se diz — acho que nunca se diz, as palavras que guardamos indevassáveis, talvez as mais livres e verdadeiras, se a simbologia não nos rouba as singulares verdades, tornando tudo relativo — penso em ti, o que farias se estivesses comigo agora, nossos acenos, pequenos fragmentos de gestos identificáveis em olhares e silêncios. A vida cabe numa fração de segundo se a sabemos viver, quero dizer, a vida vale a pena, mesmo que só se perceba isso em instantes em que nossa única comunicação é olhar e sorrir, sem qualquer verdade ou questionamento.
Teu cansaço é que fica comigo, vagando pela rua em que não te encontro, vasculhando em latas e velhas lembranças que lambem minha fronte e meu coração taciturno. Pousa como uma partícula de pó, que se acumula dia após dia, longa e repetitivamente, sem que a percebamos e vai tomando conta de tudo, até não a desconhecermos mais, até nos acostumarmos à mudança que não prevemos, e, embora constante, nunca a prevemos. Fica de ti, pontuando minha voz de hoje, talvez o calor e gotículas de uma lágrima que teima em não desistir. Pois que a desistência seria abandonar a vida. As mesmas vozes que me acalentavam ontem, passam aéreas, sem porto ou ponto onde possam pousar e resgatar o ouro da seara adversa; as palavras que compartilhamos e não se convertem em forma, ênfase, convivência, e caem sem peito que as consumam: nós distribuídos nas conveniências de cada hora.
Teus carinhos aprendidos de tempos passados, resgatam ainda aquela luz que fica clarividente no gesto futuro aberto, no riso, na dança com que bailam despercebidas nossas felicidades.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Noturno



À tua procura meus olhos se fecham, viajam
Planam paisagens desertas; embora as flores.
Pouco a pouco meus olhos perderam os teus
Na consumação noturna, no verso impróprio
e não dito:
apelo infantil, modulando sílabas esquecidas
à espera de tua alma a minha se fecha,
ramo pendente no meio do caminho,
bússola de meus desencontros e tesouros
rubros, azuis, clarinhosos
centelha humana que não finda com a noite
embora recolha os nossos olhos de criança
cheios da ciranda desaprendida nas tardes
invisíveis de dissipadas.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Escuta



Escuta, eu não quero me encantar de ti.
És linda, mas meus olhos são como as noites tristes
Que banham teus seios claros
Como os das estátuas de virgens
Nos jardins públicos.
Eu não posso me encantar de ti
Em vão os meus lábios sentiram o desejo de te possuir
As folhas se retêm por um instante no ar
Antes de caídas aos pés das árvores.

Envelheceu



Meu antigo gesto de te assistir, abraçar, proteger
Nossas falas camaradas calaram-se ao longo do tempo
É imprescindível viver
tudo envelhece
Papéis amarelecidos rasgam, a tinta se apaga
A voz fica rouca, pouca, sem palavras
Envelheceu
o nosso primeiro encontro
até o último, quem diria?!
Que claridade traz esta lembrança!
essa maneira de reconhecer coisas boas em nossos punhados de saudade.
Envelheceu meu sonho e meus filhos contigo
Envelheceu o lugar, o banco debaixo da árvore e o beijo
Tua mãe envelheceu
Mas o coração está vivo.
Envelheceu a viagem, a procura
A criança bicuda que eu conheci
Os nossos amigos também
Mas nesta fotografia contemplo ainda
O artesanal carinho
De um coração ainda infantil.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Carta-consolo ao Desconsolo do Amor



Meu amor, versos e rosas, flores e prosas
São para mim o que para ti já não podem ser.
Tudo está torto e acabado o dever
De gostar, amar, dar carinho e sofrer.
Trago ainda em minhas mãos estrangeiras estes versos
Que as rosas não falam e eu calo, embora universo.
Não te culpo pelas horas de desafeto em teus olhos vistas
Trago em mim aquela saudade intensa pra que eu nunca desista,
Trago em meus olhos o apelo irresistível das lágrimas
De um furor cruel e um dedicado suspiro em lástima
Em que me reapareças novamente
Num tempo sem manchas de um futuro ausente.
Trago em meu coração a sonata que compus para a tua vida
E em minha tristeza a sinfonia silenciosa da despedida
Do que fui e do que fomos dentro de um tempo que direi eterno
Mas que em nossa seara de orgulho ficou frio inverno
De lembrar o que celebramos o outro no um
O que era amor e vida; hoje é silêncio e jejum.
Meu amor, ainda te espero como a minha amada
Sei que não pretendes voltar, estás tão cansada.
Mas meu amor existe e não quer partir
Quer ficar te olhando o teu sono dormir...
E eu estou morrendo de saudade
De te ter novamente comigo — e tudo seria bondade.
Estou triste, porque meu amor, a minha princesa me deixou
Faltou no encontro de sábado e o mês inteiro acabou
Tão triste agosto ser o mês do desgosto
Mas nem me importava o tempo. Queria só meu amor reposto.
Volta para mim e o próprio céu ficará mais santo
Mas se não voltas, eu todo me deságuo em pranto.
Desculpa se choro, o amor desespera um homem
Mas se eu te amo, a vida ressurge e os desesperos somem.
Eu te amo e mesmo com esta vida que definha
Te amarei para sempre minha pequenina rainha.
Para ti é que foram feitos muitos dos meus versos
E não importa o que aconteça, isso te será único no universo.
E lembrar disso me deixa grande e pequeno outra vez
Grande porque fui teu amor; pequeno porque não me vês.