Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Rugas

Meu coração ainda espera que voltes,
não para abraçar, como costumávamos,
basta que teu olhar me fite
e eu me lembre de tudo que fui.
Embora já não possas.
Perdeste a graça infantil de eu te ver.
Mudaste, mudando o mundo.
Não sei mais sofrer.
O rosto está cheio de marcas, não são rugas
— que ainda me esperam à intimidade da velhice,
É o que nos resta da vida,
depois da saudade,
depois dos rostos em névoa,
depois da nossa falta de nós mesmos.