Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Feérico

Gosto da tua voz que pouco a pouco apaga meu coração
Última estrela na noite
E do eu suposto na ilusão de possuir-te

Gosto do tempo, fina chuva como lágrimas que sempre escoam
E nunca sabemos para onde
Com que afago feérico ou ferocidade nos deixam
Assim mal-amados mesmo por nós mesmos

Gosto dos riachos que escorrem por nossas carnes envelhecidas
barreiras que caem pelos rios as cruzarem
Nessa música tão breve que cada instante destoa noutro...

Gosto das lembranças debruçadas em não mais estares
De serem parecidas com as do futuro que éramos, menos tristes
Outras horas, nosso tempo
Quase parado de efêmero a voar por sobre nossos dedos

Encontrando-se no baile dos desencontros em que vez por outra
Satisfazemos angústias que não findam

Ainda que ao cabo da noite mais etérea.