Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

As coisas são assim...

Vou viajar e quero te deixar algumas coisas, as lembranças, que são muitas, inclusive e em especial a deste dia em que te vi chorar com uma dor lânguida, como se não tivesses outros recursos para te proteger além dos teus olhos febris, como uma criança que se desconsola ao ouvir o queixume da mãe, atrás da porta, e atada em seu silêncio, no quarto, ora: “Deus, proteja a minha mãe, não deixa ela chorar!” — como se pudesse salvá-la; como um menino que acredita em um filme. E vendo-te tão vulnerável, descobri como é bonita a nossa dor, que é um pouco de felicidade disfarça em orgulho bobo e sagrado.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Outros vícios

Talvez nos falte essa comunicação
Que tão pouco tenho visto nessas palavras arrogantemente surdas de todo o mundo,
Esse cuidado de olhar de perto outros
Quero ser escutado por desconhecidos que me descubram humano
Quero ouvir pessoas diferentes, que não contem anedotas quando se sentirem deusas
Eu não tenho tribo... desculpe, mas sou singular demais para caber em qualquer postagem, receita ou ato mecânico que alguns chamam civilidade, moda, coisa atual
sou fauna e flora, cor, sabor, cheiro e erro, muitos erros
Sem maquiagem de asfalto e arranha-céus entupidos de solidão.
A mesma solidão do computador.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A viagem

Não compreendo muito bem a força das palavras guardadas, aquelas que, se ditas, talvez mudassem o mundo. A falta que faz dizê-las é o preço não pago, o valor adiado, a liberdade contida, e o universo que se fecha parvamente. Visito muitas delas, e percebo que tornei-me irrespondível aos seus apelos, outras trago ainda retidas, secretas, embora gastas, amarrotadas, amarelas como uma velha fotgrafia. Porém impossível despedi-las, pois abrigam a luz de qualquer acordo subterrâneo que teci entre meus companheiros, procuram consolar a falta que a força da perfeição obriga; são solitárias as minhas companheiras. Contam-me dos homens, do modo como as perderam e ridiculamente as fizemos escravas de qualquer som vazio, sem descobrir sua melodia, seu ritmo, seu acordo, seu silêncio... brinco com uma delas, o "próspero" cansado de não prosperar, cansado da carga de um ano depositada toda em suas costas. E outras, como a "paz", a "liberdade", que todos gostariam de praticar, entanto ninguém sabe o que é, ninguém dá ouvidos para o que elas têm a dizer. E assim nós as usamos sem caráter nem compromisso, politicamente corretos nos acostumamos tanto ao uso quanto ao desuso, esquecemos o que diziam os livros da nossa infância, das palavras que abriram as portas de um mundo que não podíamos ter nas mãos, mas puro signo que podíamos absorver em significante e significado, como também esquecemos dos brinquedos e de brincar. Envelheci, minhas palavras, mas vocês todas estão ao meu redor, calmas e silentes, como se dissessem olha o mundo, ele é grande e espera por ti, desde o primeiro som, desde o primeiro pedaço de papel em que teus olhos se consumiram e descobriste a viagem sem destino.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Tudo novo, muito novo

É Natal! Saúdam os olhos do menino,

são pequeninos esses sinos

Ao ritmo do coração pobre e franzino

pobre, mas natalino.

E eu fui ficando grande

E o mundo diminuindo

amor seja como for é o amor

Malogrado, não doado, mas amor.

Fica um pedaço de igreja

Talvez santidade do olhar

Nos restos do s nossos brinquedos

Na expectativa de celebrar

Não as cores rubras laminadas sob algodão

Mas algum lugar em Jesus

Num punhado de coração

Íntima, ínfima luz

posta no verde, vede,

encobrindo as sombras da cruz.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Amanhã

Como não amar o que se perdeu?
Como conquistar o mundo futuro?
Meu coração confabula um carinho
ainda livre no espaço: esperança.

Ergo-me sem salário,
vomito a cidade
que dorme.

De manhã o capitalismo
vozes de venda de tudo
máquinas e almas tropeçam-se
na esquina, num ritmo gigantesco.

É preciso salvar a cidade
o Estado (da divisão total)
o país e a memória.

Luto

na memória, civilizações inteiras
revolto-me e estou civilizado.

dorme poema, acorda-me amanhã.

Retirada

Retiro-me, fui menino e a chuva era um morno vapor

com cheiro de barro molhado, a tamborilar na telha

Reiterando a vida na terra, com sua claridade de afeto calcário...

Quanto tempo se perde no silêncio de um segundo

Quantos segundos se perdem no silêncio de um dia

Quantos dias se perdem no silêncio de um ano

Quantos anos no silêncio de uma vida?

Tudo é tão pequeno e tão grande....

Remexo lembranças, cacos de louças saltam,

Tardes brancas empalidecem, perdem a cor, desfazem o céu

Que era meu e era teu

E não é mais de ninguém

Olho os amigos, acolho seu desabrigo, recolho-me em silêncio

Estão velhos e simples como a hora

Mas resistem, ainda que resignados, são fortes

Quanto me ensinaram? Quanto desaprendi daquele tempo

E que força os resgata em mim que os absorvo aéreos

casos ridículos vêm contar-me do país dos homens felizes.

Praticamos o mundo em nós se o relembramos, e talvez

Assim o pintemos de outro azul, vernáculo fora dos dicionários,

segundo que não se desbota com o tempo, nem o alcanço

face branca ao nosso lado na noite, respirar de pai dormindo, suspiro

de filho entressonhando seus medos ainda não maduros.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Formalidade

O que será do dia quando não for meu, não for mau

nem bom para delírios e amores e o livre arbítrio

será rosa, amarelo, doce em seu calor e frescura

ou talvez ainda haja aquela velha canção, pulsando

esquecida na angústia que cega os olhos

e a madrugada a tilintar sons longínquos

como os de quando eu era criança

e não sabia assoviar, nem sofrer, nem amar,

nem compreendia o que era solilóquio,

o dia era imenso e a cidade era cheia de conhecidos

hoje me desconheço.

Procuro flertar com o tempo sem que ele tenha necessidade de mim,

É imenso o tempo e meus dedos são curtos

A vida é um olhar que carregamos

De triste ou alegre,

ficou a brancura da hora de um pequenino tempo,

Só a criança sabe compor novo o mundo. Nós, apenas nos enganamos.

Corro, e o tempo é lento , paro e perco.

Quem me dera fosse criança para não saber que existo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Novo Natal

Que grande farta era aquela mesa

em que esquecíamos os males de família

e cobríamos de promessas o ano novo.

Esperávamos os parentes de longe

Já sabíamos

que alguns não poderiam vir este ano

(mas mandariam presentes).

O ano passado esquecido

entre anúncios de papai Noel e roupa nova,

brinquedo novo, casa nova,

nova vida nova e luzes coloridas.

As manhãs eram frias

e lembrar põe sentido nas coisas

que banalmente consentíamos.

Vinho, champanhe e família reunida

Tempo de paz.

Essa paz com que se perdoa

e se reata as amizades e se fica mais humano.

E tudo acabava em festa

(depois crescemos, nos afastamos.

Muitos partiram. Faltou dinheiro. Crescemos.

Perdemos e aprendemos)

O mundo gira mais rápido

e diminui o dia, diminui a vida, diminui a gente.

E o humilde ano bate à porta

não o enchamos de expectativas

(e só assim se vive...)

Guardemo-lo, não o enchamos de justiça

(e só assim se é justo...)

O outro se retira austero

com o nosso bocado de esperança frustrada,

com nossas mazelas e lívido suor,

com nosso trabalho e cansaço,

com nosso morno alívio de recomeçar

(e só assim se esquece...)

A mãe está mais triste

(o pai nos deixou)

A irmã começou a trabalhar.

A outra veio morar com a gente.

O outro passou no vestibular.

O emprego de verbos sem sentidos

inclusive os sem ação

põe fragrância na vida desencontrada

sem uma estrela no céu que nos possa conduzir.

E o menino continua no estábulo

Porque não há espaço no coração do rei herodes.

domingo, 20 de novembro de 2011

Quando

Quando estaremos livres da disciplina e do medo de nos machucar, do medo de viver, do medo do nosso anseio de ser livre?

Até quando as regras da sociedade nos serão caras, mesmo sabendo quanta hipocrisia há? Mesmo sabendo que há meninos de rua (menino não precisa de locução adjetiva); mesmo sabendo da fome abstrata do país inteiro e dos famintos que não têm o que comer?!

Até quando o salário do crime será a impunidade e os milhões que alimentam a cultura de que “aqui no Brasil tudo acontece, tudo é normal”?

Quando é que seremos do samba, sem os jornais de amanhã e os mortos nas estatísticas dos acidentes de trânsito?

Quando o amor vai ser mais importante que o trabalho?

Quando ficaremos nos cais sentindo o vento bater em nosso rosto sem nos preocuparmos com o mundo que virá para nossos filhos, sem respirar fumaça e capitalismo?

Quando é que seremos menos covardes e aprenderemos a fazer o que for preciso?...

Quando talvez um dia converter-se em um sorriso

E o valor do homem for incalculável.