Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Para cada amor

a vida passava lá fora
era um cão
era um convite para ir à rua
descobrir o azul das coisas
o ônibus que leva à feira
leva meninas ensaiando-se mulheres
o cobrador com seu sorriso amarelo,
o estudante com seus sonhos,
o motorista com o seu capitalismo
todos eles vão para o mundo
são o mundo e a vida
recontando em pequenas variações
o nosso alfabeto pessoal.
Eu sou eles.
E o tempo é diferente para cada amor.

Amor rubro

Ah, meu coração, por que não te calas como estão teus antigos amores?
Soletras gesto a gesto cada carinho,
- como é pequeno e irrisório o tempo!
E tuas leis, mais altas que a antiga alegria de sorrir,
com os braços cruzados em desalinho
dizem do teu olhar perdido pelos confins do silêncio, de repente.
O céu desfez-se em terra desmoronando,
A casa fria das nossas lembranças
tem as portas abertas à espera de que entres.
Chove sobre a palidez da noite,
chuva triste e incontida
de pai, mãe, filha, amor rubro.

Magnífico

Magnífico, era como se sentia. Olhar fixo sem vacilar e um turbilhão de pensamentos lhe cruzava a mente, numa imensa velocidade sem verbalização. Magnífico, aquele usado pedaço de carne, com muitos sóis sobre a pele... ainda há pouco pensava que nada lhe restava a perder que já não llhe tivessem tirado. Até um ônibus sobre seu corpo parecia-lhe uma solução. Tivera dois filhos. Mortos. Mulher, muitas lhe traíram, a última lhe abandonou. Emprego?! nem um "bico". Cansara-se da vida. Logo ele que na adolescência xingava Deus e o mundo pela menor injustiça; agora nem mais questionava como lutar desarmado. Era ligeiro, franzino, olhos graúdos e altivos. Era preciso consertar o mundo, mas... e o medo, essa frágil raiz dos altos caules?
"Magnífico" era a palavra que melhor fazia alusão ao seu estado, à redenção de tantos gestos confusos à espera de um milagre. Fugir tinha sido o lugar comum de seus pensamentos, reluzindo a fio por dias. Mas agora estava ali, magnífico, sem nada mais a perder, sentia-se limpo como quem não precisa ir, nem voltar, com todas as possibilidades da vida se afunilando inversamente. Formara-se em engenharia. Não importava. O que lhe agradava era aquele gesto repentino, cheio de sol da manhã, quando há a possibilidade de todo o desconhecido. Aquela pálida mão exposta ao tempo lhe trazia talvez a resposta de uma vida inteira. Pensava-se aposentado para tamanha felicidade e era tudo tão simples, que sequer podia ter medo. Sorriu ofegantemente, demasiado cansado de a vida ser uma espécie de sentido nosso, era estranhoso que tivesse passado tanto tempo tentando ocupar o espaço do sentido que lhe impusera, enquanto o universo era esparso e denso... dormiu, bêbado de sensações silvestres e retornos.
Podia retornar à vida como quem volta a casa, com o cansaço digno que o trabalho traz ao final do dia. Vira-se cutucar os alevinos com um galhinho ao pé de uma ponte de madeira, numa vala, na infância. Perdera esta visão pela lembrança de um beijo e o barulho de risos e vozes tão longos e distantes quanto impossíveis de esquecer. Estavam ali, em algum lugar, fazendo parte do que percebia-se ser agora. E a lírica visão dos negros cabelos da filha entre seus dedos, vivos e macios... tivera tudo, fora rei em terras longínquas...
Mas agora encontrava-se novamente firme, exausto mas firme, e como não pudesse compreender, apenas se admirava: o velho muro da cidade em ruínas ainda mantinha viva a grafia dos casais que ali um dia celebraram de alguma forma a descoberta do amor, com seus percalços e seu frescor de inocência; e as praças com novas pinturas, onde ninguém mais se reunia, onde havia a saudade dos velhos amigos; e a voz de tanta gente, de tanta afeição... Por um instante descuidou-se e agora estava ali, sentado à forma da concha ferida produzindo a sua pérola, pequenas escamas de areia escorriam de seus olhos envidraçados. Dobrara-se, deitara-se e agradeceu a Deus...M-A-G-N-Í-F-I-C-O.