"Magnífico" era a palavra que melhor fazia alusão ao seu estado, à redenção de tantos gestos confusos à espera de um milagre. Fugir tinha sido o lugar comum de seus pensamentos, reluzindo a fio por dias. Mas agora estava ali, magnífico, sem nada mais a perder, sentia-se limpo como quem não precisa ir, nem voltar, com todas as possibilidades da vida se afunilando inversamente. Formara-se em engenharia. Não importava. O que lhe agradava era aquele gesto repentino, cheio de sol da manhã, quando há a possibilidade de todo o desconhecido. Aquela pálida mão exposta ao tempo lhe trazia talvez a resposta de uma vida inteira. Pensava-se aposentado para tamanha felicidade e era tudo tão simples, que sequer podia ter medo. Sorriu ofegantemente, demasiado cansado de a vida ser uma espécie de sentido nosso, era estranhoso que tivesse passado tanto tempo tentando ocupar o espaço do sentido que lhe impusera, enquanto o universo era esparso e denso... dormiu, bêbado de sensações silvestres e retornos.
Podia retornar à vida como quem volta a casa, com o cansaço digno que o trabalho traz ao final do dia. Vira-se cutucar os alevinos com um galhinho ao pé de uma ponte de madeira, numa vala, na infância. Perdera esta visão pela lembrança de um beijo e o barulho de risos e vozes tão longos e distantes quanto impossíveis de esquecer. Estavam ali, em algum lugar, fazendo parte do que percebia-se ser agora. E a lírica visão dos negros cabelos da filha entre seus dedos, vivos e macios... tivera tudo, fora rei em terras longínquas...
Mas agora encontrava-se novamente firme, exausto mas firme, e como não pudesse compreender, apenas se admirava: o velho muro da cidade em ruínas ainda mantinha viva a grafia dos casais que ali um dia celebraram de alguma forma a descoberta do amor, com seus percalços e seu frescor de inocência; e as praças com novas pinturas, onde ninguém mais se reunia, onde havia a saudade dos velhos amigos; e a voz de tanta gente, de tanta afeição... Por um instante descuidou-se e agora estava ali, sentado à forma da concha ferida produzindo a sua pérola, pequenas escamas de areia escorriam de seus olhos envidraçados. Dobrara-se, deitara-se e agradeceu a Deus...M-A-G-N-Í-F-I-C-O.
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