... Teu silêncio é um achado antigo, em que a poeira sentou, acumulou-se e os dedos escrevem... (Cristino Júnior)
Caro Leitor
Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.
Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,
Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.
E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.
Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.
Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Tempo
Lembrar do tempo e sentir-me vivo. Espreguiçar-me até sentir o último músculo do coração alongar-se para enrolar-me de novo nas lembranças em que a saudade acumulou-se preguiçosa, nas promessas de para sempre que terminaram antes da hora. Talvez por ser a eternidade mais um sentimento particular que uma comissão temporal. Ficou a arte de viver dos adultos da minha infância, as casas grandes e os primos muitos, brincando e brigando simultaneamente. Ficou a luz daquelas manhãs nas goiabeiras e um tempo que não cabe mais nos calendários, nem disso tem necessidade. lembro vagamente do samba cantado como um orgulho humilde, feliz, digno como é a vida... A saudade é o desejo de viver agora o tempo que se foi.
Os feixes de sol entraram pela janela e distraidamente me lembraram o primeiro amor, com sua metáfora de tudo que é matinal, a cor enevada das auroras e a luz, muita luz... meu sentimento guardado à vontade de confessá-lo, como uma fruta ainda não madura, e apureza de apenas senti-lo, em sua não sabida força de criar: foi dele que nasceram meus primeiros versos. Amor, que improvável, nunca se dissipou, e que trouxe para a vida o sentido da palavra ternura, nos olhos que riem de satisfação em lembrar e saber: único esse momento entre os recônditos do tempo. E nunca mais. Nunca mais outro idêntico, par; apenas ímpares, com seu significado existencial e sua pluralidade, a dor de lembrar o amor perdido quando era necessário conjugá-lo; e o carinho preso em tantas palavras duras, em tanta vontade de dizer, de mudar os rumos da perda; enquanto a necessidade de crescer nos obriga a calar. Ficou o silêncio depois da morte, esse vago. Tu ausente. Não é dezembro. Mas ainda lembro. Tantos desencontros se tronando encontro, tantas faltas fazendo sentir a vida. A partida, a distância e a vontade de ficar ao teu lado, o calor das convivências crescendo nos peitos... Quero cantar, mas o silêncio é tão bom.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Meu coração percorre teus feitos, pose infantil
peito nu, voz desabrigada de carinho
e a falta invisível de tudo que cala.
A pureza do primeiro afago cumpre a tristeza do universo
e as casas envelhecem e diminuem quando a gente cresce,
móveis rebentam, puem-se cordas, resta o silêncio
a difícil esperança de repor o tempo e recompor a infância,
de tentar guardar os jardins do que se viveu.
Enquanto escapam aos olhos a nossa ternura, o amor,
a voz querendo proteger o filho que já partira
do pretério mais que perfeito
luz de poste sob chuva fina
e os desencontros construindo nossos encontros...
Ainda outros ofícios: caxeiro, amante, presidente,
pois tudo é linguagem no nosso repertório de nos ensaiarmos,
o dia com sua labuta inicia a noite com seus ais, carícias e espasmo
o corpo preso à terra com seu medo e divindade
e as flores e os caules crescendo fora de ti,
tudo herdado ao poder do silêncio e da criação.
E meu coração pela rua sonâmbula do tempo
em que as vozes vão ficando maiores que a gente
ao ponto de elidir o tempo e o espaço
e cumprir outra forma de vôo, subterrâneo,
satisfação de calar e conviver
com os nossos meninos de rua.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Por isso restarão as sombras das tardes à beira do rio ao sol posto.
Por isso as casas estarão cheias de solidão.
Por isso os versos achados em dezembro estarão perdidos à espera de um olhar que os busque.
Por isso as folhas amarelas se deixarão ao ritmo inusitado do tempo, uma por uma, silenciosas.
Por isso o inverno será mais intenso e as luzes se apagarão sem sono ou sonho.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
os casulos que a saudade faz pra te proteger.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Trouxeste a calma dos que olham a vida e isso basta.
De todas as formas de procura, uma me basta: a do amor descoberto em criança, botão em expectativa de flor.
Quão leve teu ser em rotação no espaço como um nascimento luminoso de auroras e carinho preso em peito de homem.
E tuas mãos já em promessas que a própria memória trouxera desde tempos imemoriais, quando tudo fora silêncio.
Nasceste para confortar a arquitetura do mundo nos olhos do infeliz que me supunha, teimoso e ingrato ao clarão do universo.
E hoje, reposto menino, da janela olha a previsão diáfana que há entre um beijo e um caminho, entre formas sem geometria pela contemplação dos seres em perpétuo movimento.
