Nem sou tu
Nem te escrevo, o que escrevias.
Minha falta, nossas faltas
(terno repintado de tantas ocasiões)
Restam consórcios não abolidos
E medulas e a maneira dos jornais
da fome e da miséria
como flores simples — se é que se pode compor
instantes entre mundos diversos
no desenho de uma flor.
E as mãos imprimem movimento em pálidos cadernos,
Nem livros são... apenas memória
Meu merencório silêncio compõe
a falta dos teus olhos imensos
Nem fui afeito ao amor
Erram por mim os bispos com sua religião,
Os condes com seus monólogos,
As virgens e seus ais,
Os loucos com seus risos
E nem há conserto para o mundo.
Mentimos à espada a nossa fome abstrata.
E eram dois olhos, e mais nada.
Nada, preso na tarde, na história, no muro
de toda procura
À guisa de explicação
para o espetáculo que excede
o mundo aberto em silêncio.
Nem eram mãos aquelas
Nossas
Presas a caminhos perdidos
Mas tão lunar hoje que doem
Imprestáveis de saudade e ternura
Como compor o que sucede a cada momento?
E o coração, e tudo mais cansado...
Nem voz para restituir o que nos roubam as palavras
em silêncio.