Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

sábado, 31 de março de 2012

Não te escrevo

Nem sou tu

Nem te escrevo, o que escrevias.

Minha falta, nossas faltas

(terno repintado de tantas ocasiões)

Restam consórcios não abolidos

E medulas e a maneira dos jornais

da fome e da miséria

como flores simples — se é que se pode compor

instantes entre mundos diversos

no desenho de uma flor.

E as mãos imprimem movimento em pálidos cadernos,

Nem livros são... apenas memória

Meu merencório silêncio compõe

a falta dos teus olhos imensos

Nem fui afeito ao amor

Erram por mim os bispos com sua religião,

Os condes com seus monólogos,

As virgens e seus ais,

Os loucos com seus risos

E nem há conserto para o mundo.

Mentimos à espada a nossa fome abstrata.

E eram dois olhos, e mais nada.

Nada, preso na tarde, na história, no muro

de toda procura

À guisa de explicação

para o espetáculo que excede

o mundo aberto em silêncio.

Nem eram mãos aquelas

Nossas

Presas a caminhos perdidos

Mas tão lunar hoje que doem

Imprestáveis de saudade e ternura

Como compor o que sucede a cada momento?

E o coração, e tudo mais cansado...

Nem voz para restituir o que nos roubam as palavras

em silêncio.

Carinho

No coração do meu olhar
há jardins floridos de estrelas,
há carinho,
muita lembrança e ternura.
É indelével o tempo a caminho de tudo.
Meu coração, neste inventário de lutas,
levas pela vida inteira
o carinho de um homem atormentado de ausências.

quarta-feira, 28 de março de 2012

O que me dói

O que me dói é não poder trazer todos os meus amigos sempre comigo...
Não levar minha mãe a todos os lugares bonitos que conheci, onde cheguei...
Não poder mais conversar com meu pai sobre as impressões, mesmo que sutis e bobas, que a vida vai deixando...
Não poder amar em um só momento todos os meus amores
(os muitos que tive e me tiveram),
Não sei se amor eterno quer dizer amor único,
Sei que sou apaixonável e apaixonante
e não tenho medo do futuro se parecer com o passado,
- não sei como se vive de outra maneira!
Afinal a vida é esse silêncio casmurro de saudade
brigando em mim feito poesia pura.