Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

sábado, 28 de novembro de 2015

De composição



Volto a compor poemas com a luz um pouco escura dos meus olhos castanhos
E a solidão noturna das florestas ao longe do que são as casas
A velha infância deixada em algum subúrbio da alma
Ainda murmura uma prece imperceptível, de quem ora sem lágrimas
De quem se ausenta dos sonhos que éramos um dia
Das folhas outoniças nas vagas agarrando-se antes do chão
Ficaram os olhos de minha mãe à porta, eterna espera de eterno amor
E as paisagens da alma foram perdendo a cor, a flor, a dor, amor
Velhamente — como tudo é velho dentro de nossa estranha solidão!
Volto sem voltar, à espera de um vislumbre que me salve de mim mesmo.