Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Tempo

O frio desta manhã me transportou a dezembro. As lembranças parecem se acomodar junto ao meu desejo de não levantar, não ter nenhuma obrigação a não ser lembrar.
Lembrar do tempo e sentir-me vivo. Espreguiçar-me até sentir o último músculo do coração alongar-se para enrolar-me de novo nas lembranças em que a saudade acumulou-se preguiçosa, nas promessas de para sempre que terminaram antes da hora. Talvez por ser a eternidade mais um sentimento particular que uma comissão temporal. Ficou a arte de viver dos adultos da minha infância, as casas grandes e os primos muitos, brincando e brigando simultaneamente. Ficou a luz daquelas manhãs nas goiabeiras e um tempo que não cabe mais nos calendários, nem disso tem necessidade. lembro vagamente do samba cantado como um orgulho humilde, feliz, digno como é a vida... A saudade é o desejo de viver agora o tempo que se foi.
Os feixes de sol entraram pela janela e distraidamente me lembraram o primeiro amor, com sua metáfora de tudo que é matinal, a cor enevada das auroras e a luz, muita luz... meu sentimento guardado à vontade de confessá-lo, como uma fruta ainda não madura, e apureza de apenas senti-lo, em sua não sabida força de criar: foi dele que nasceram meus primeiros versos. Amor, que improvável, nunca se dissipou, e que trouxe para a vida o sentido da palavra ternura, nos olhos que riem de satisfação em lembrar e saber: único esse momento entre os recônditos do tempo. E nunca mais. Nunca mais outro idêntico, par; apenas ímpares, com seu significado existencial e sua pluralidade, a dor de lembrar o amor perdido quando era necessário conjugá-lo; e o carinho preso em tantas palavras duras, em tanta vontade de dizer, de mudar os rumos da perda; enquanto a necessidade de crescer nos obriga a calar. Ficou o silêncio depois da morte, esse vago. Tu ausente. Não é dezembro. Mas ainda lembro. Tantos desencontros se tronando encontro, tantas faltas fazendo sentir a vida. A partida, a distância e a vontade de ficar ao teu lado, o calor das convivências crescendo nos peitos... Quero cantar, mas o silêncio é tão bom.