Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Sonâmbulo

Meu coração percorre teus feitos, pose infantil
peito nu, voz desabrigada de carinho
e a falta invisível de tudo que cala.
A pureza do primeiro afago cumpre a tristeza do universo
e as casas envelhecem e diminuem quando a gente cresce,
móveis rebentam, puem-se cordas, resta o silêncio
a difícil esperança de repor o tempo e recompor a infância,
de tentar guardar os jardins do que se viveu.

Enquanto escapam aos olhos a nossa ternura, o amor,
a voz querendo proteger o filho que já partira
do pretério mais que perfeito
luz de poste sob chuva fina
e os desencontros construindo nossos encontros...

Ainda outros ofícios: caxeiro, amante, presidente,
pois tudo é linguagem no nosso repertório de nos ensaiarmos,
o dia com sua labuta inicia a noite com seus ais, carícias e espasmo
o corpo preso à terra com seu medo e divindade
e as flores e os caules crescendo fora de ti,
tudo herdado ao poder do silêncio e da criação.

E meu coração pela rua sonâmbula do tempo
em que as vozes vão ficando maiores que a gente
ao ponto de elidir o tempo e o espaço
e cumprir outra forma de vôo, subterrâneo,
satisfação de calar e conviver
com os nossos meninos de rua.

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