Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A viagem

Não compreendo muito bem a força das palavras guardadas, aquelas que, se ditas, talvez mudassem o mundo. A falta que faz dizê-las é o preço não pago, o valor adiado, a liberdade contida, e o universo que se fecha parvamente. Visito muitas delas, e percebo que tornei-me irrespondível aos seus apelos, outras trago ainda retidas, secretas, embora gastas, amarrotadas, amarelas como uma velha fotgrafia. Porém impossível despedi-las, pois abrigam a luz de qualquer acordo subterrâneo que teci entre meus companheiros, procuram consolar a falta que a força da perfeição obriga; são solitárias as minhas companheiras. Contam-me dos homens, do modo como as perderam e ridiculamente as fizemos escravas de qualquer som vazio, sem descobrir sua melodia, seu ritmo, seu acordo, seu silêncio... brinco com uma delas, o "próspero" cansado de não prosperar, cansado da carga de um ano depositada toda em suas costas. E outras, como a "paz", a "liberdade", que todos gostariam de praticar, entanto ninguém sabe o que é, ninguém dá ouvidos para o que elas têm a dizer. E assim nós as usamos sem caráter nem compromisso, politicamente corretos nos acostumamos tanto ao uso quanto ao desuso, esquecemos o que diziam os livros da nossa infância, das palavras que abriram as portas de um mundo que não podíamos ter nas mãos, mas puro signo que podíamos absorver em significante e significado, como também esquecemos dos brinquedos e de brincar. Envelheci, minhas palavras, mas vocês todas estão ao meu redor, calmas e silentes, como se dissessem olha o mundo, ele é grande e espera por ti, desde o primeiro som, desde o primeiro pedaço de papel em que teus olhos se consumiram e descobriste a viagem sem destino.

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