Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Ruínas

Ruínas de sentir-me, à posição abstrata com que velo teus olhos,
Ilusão de fugir, imposição de ter de viver, assombra-me pensar
Da escotilha do barco que já não há e é sempre, em mim.
Impossibilidade de sentir-me senão da minha maneira,
Ser louco ao menos uma vez para não ter que dar aos meus atos intelecto,
Ser o bastante o gesto encerrar-se no corpo que o produzira.
Não tarda a velha face os jasmins que te procuram,
Não tarda e nunca chega, inconcluso, e fito este meu estar vivendo
Fito os meus olhos tristes e sem lágrimas não ser mais criança
Fito os meus sentidos e longinquamente estares viva
Estarei sempre na antessala, nunca entrarei pela porta a ver-te
Ou a viver o que me propus em sonho, louco e certo como todo sonho o é.

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