Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Pretérito Perfeito (para todos os que se foram)

Não desejo que minhas últimas palavras sejam lembranças tristes. Na verdade, gostaria que tivessem a mesma febre do meu olhar perdido diante das belezas que pude contemplar no mundo, eu pequenino em meio ao medo da grandeza de tudo. A inocência com que busquei meu primeiro beijo e a ternura da flor depositada na janela, de madrugada, sem que ninguém soubesse.
Posso exprimir os sonhos que não realizei como uma estrela cadente que perdida e vertiginosa me maravilhou por alguns segundos e pôde refletir em meus olhos o que o meu interior guardava; já será tarde para fazê-los, mas a música que me emprestaram teve a beleza do primeiro amor, sim o meu primeiro amor foi inebriado de sonhos e ele cabia em um poema e em cada silêncio do universo.
Depois de muito caminhar como um peregrino em busca de algo inacessível às palavras, olho para trás e vejo como é bom voltar para casa, desagregado de toda ordem ou capricho, sossegado por poder ser eu mesmo. Como é precioso o tempo, e o quanto pode ser amável a solidão quando não se tem medo dela. Como é precioso o tempo com sua lanterna existencial que nos faz sair da toca e ir à busca do vento, na noite, para poder ver o amanhecer e suas cores múltiplas.
Não quero que meus filhos tornem-se mais velhos que eu, seria como furtar a divindade de suas vidas. Quero ser caduco quando o olhar ou a memória não mais quiserem agraciar-me com seu precioso dom. E a minha língua pátria, de quem tanto fiz uso, possa dizer aos que me sucederem que fui uma espécie de erro bom, que só compreendeu os outros porque em algum momento foi falho e precisou buscar algo melhor, que lhe reconhecesse possível. Isso foi o que mais me comprouve, a afetação que podemos provocar em outros, igual a uma criança desconhecida que nos sorri.

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