Caro Leitor

Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.

Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,

Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.

E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.

Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.

Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Conhecimento

Desconheço-me a sonhar-me outro
Tão qual o primeiro, quase me convenço que sou eu
Mas há tantos sonhos e os gestos tão poucos...
Desiludo-me — vou morar fora de mim!
Viver sem sentir medo, isto que me parece impróprio e tão certo
A vida aos bocados e cabe na minha mão
Em minha mão
Ah, silêncio que desnudo a lembrar-me
Tantas alegrias tidas e perdidas
Que é o coração
Senão este solene titubear entre beijos e noites profundas?
Passa noite, vem dia, vem incólume como uma manhã de domingo em que há paixão
Ao menos nos olhos que te fitam errantes
Ao menos nos gestos que não se abrem, botão de flor, aurora
Para tanto dia
Ao menos nessa certeza que o não dar contenta.
Feliz pelo nada em que sonho ser tudo.

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