Um gesto é sempre um adeus.
Ainda que alegre, é triste
e não pode consolar.
Ficaram as bactérias,
os micróbios de tua noite
na louça do teu amor.
O que era palavra ficou nulo, insosso
mudo, faca de pão sobre a mesa suja.

Li Drummond, há tempo...
E ele continua.
Decerto perdera alguns gestos
conquistados ou repelidos a uma luz mais intensa
que a brandura do seu olhar.
Repara no tempo, esse mago a deteriorar-nos,
como modela as coisas mais frágeis
e embranquece os cabelos com que se finge mais calmo o teu velho pai.
Repara que a uma idade maior (e é sempre nova)
Dissolve-se a porosidade de alimentos raros,
Receitas novas... novo é o tempo
ao passo que vai fugindo às nossas mãos.
Repara: a luz é branca
e uma já se insinua mais clara:
estás destituído de amor
e colhes frutos diversos.
Repara, há uma inclinação maior,
uma doação pausada para caminhos não pressentidos.
Em muitos armaste tua enchente de crimes...
que os crimes não são de todo ruins...
ou mesmo imperdoáveis.
Repara,verifica, apalpa,
alguns momentos da vida, fora do tempo
formaram-se em nobreza —
água e sal de teu corpo,
estrela inútil na madrugada,
soluços simplórios em teu quarto ardente.
Repara, sente em tua alma o frio,
na chuva, convive,
cisma qualquer sensação universal e incomunicável
E sabes que existes e te comoves.
Repara, sente como nos sentimos velhos
E calamos... a ouvir o silêncio de cada objeto casa viagem ser
e tudo te comunica.
Repara — somos plasmas — como tudo cala
e há um silêncio mais grave na estrada
que pouco a pouco se afasta.
Em seu lugar hoje me assento para comer
sobre a vida
E conversas de coisas não mais nossas
caem da ponta dos garfos.
Observo a chuva em frente à janela
infinitamente me esqueço
e de mim tudo assim
triste ou alegre se me lembra
Todos os aeroportos que não tive
Todas as certezas absurdas que a vida me dera
e em dois minutos perdi
— como perdi a alegria —
As viagens que de véspera me deixaram cansado
e covardemente desisti.
Sei ao mundo o mau-gosto
e alguma ordem improvisada
ou imitada de alguém que não se lembra
e que já não diz nada
e dissesse, seria o mesmo sentimento
importuno de vazio e impotência,
apenas a vaga música que ninguém soubera que houvesse.
Da janela, o mundo no mundo metido prepara café,,
o mundo mineral se mira na falta de matéria,
na falta de compromisso
de horas espancadas, arrastando-se
graves em face aos olhos...
Antepassamos as cifras do amor
com a calcificação sublimando,
após a cortinas, a fumaça de todo sentimento
de derrota e culpa dos infra-humanos.
A janela é feia da paisagem que se vê:
igual a tantas!
— formal, entreaberta, triste,
sem resposta para fora ou para dentro
principalmente.
O propósito do homem que espera a chuva passar
(que olhas como em um dia fácil)
e a morte que lhe oferece um cigarro
e fumam e conversam como velhos amigos
sobre a menina matricida
e a homicida
que tomou coca-cola-e-comprimido
e trancou-se no banheiro
para que ninguém soubesse.
Em muita dor me incorporo
e a dor já não me precisa.
Sou a estranha linguagem (nunca aprendida)
dos namorados descrentes,
sou inconstituidamente a fusão da água com o óleo.
Ora, triste vai a procissão a cortejar,
pela última hora, um viajante
em cama de madeira paga.
Em coro repetem: “Livrai-nos do mal...”
e lhe apertam as mãos frias
(despidas do mal dos homens)
como se dissessem perdão,
como se dissessem “te amo”,
num triste e tardio reconhecimento do amor
(o medo da morte consola nossas almas frouxas).
Benzo-me, e que o Senhor o guarde
e que a vida prossiga...
Filosofia?... um dia hei de partir
e há de ser bonito
seja pela qual condescendente paisagem
se me aniquile a surpresa que era a vida,
o desalento de não ter
sequer um cãozinho que fosse meu;
a frustração de não ter ido à Veneza;
a tristeza de ver a mãe à porta
e lembrar, insofismavelmente, a partida do pai;
e a frágil alegria de perder e amar
e amar o perdido.
Em tudo hei de me impor confortável
quando o ápice do desespero me abater a última ânsia;
quando a mais sincera ou supérflua vontade minha
encerrar-se sob pálpebras de terra.
E nem a chuva e nem a janela
e nem a vida
sabem me dizer da corrida que trazemos
armados
nos bolsos desbotados das calças,
nas mãos sujas de criança,
nos olhos simples da idade...
Calaram-se
e eu nostalgicamente sorri
e fechei devagarzinho a janela.
O meu coração é um dia de tempestade em tua vida
E há sol e rochas na paisagem de tua alma
Chove! A chuva toda é estar silêncio...
E pensar é um modo de estar triste.
O tempo passa e as folhas caem sem argumentos
sequer nos é possível ver o medo que lhes aniquila
Estranhosamente
as flores trazidas 27 dias de dezembro o ano inteiro compreendem o silêncio dos anjos de mármore
mesmo que pássaros os visitem
entre flores e jasmins
nos jardins feitos para serem eternos
enquanto a tarde não é — nem nunca será!
Como repor sem mágoa
o teu corpo pequenino?
De que servirá este achado
feito da procura das almas
senão para a saudade dos meus próximos dias?
Um vaso belo só é útil se tem uma flor.
Já não direi que a tarde passará sem ti;
A tarde passará sem mim,
que me senti forte para dizer: amor.

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