... Teu silêncio é um achado antigo, em que a poeira sentou, acumulou-se e os dedos escrevem... (Cristino Júnior)
Caro Leitor
Ah não posso, é tudo delírio... de lírica expressão.
Não posso com a promessa de que devo escrever sempre, entre as neblinas da nossa falta de tempo para o amor,
Não posso amar essencialmente de mente, roubar a pura inocência da infância para dá-la ao sabor afetivo de algum leitor, sobretudo dos leitores caros que se entregam devotamente à contemplação do sonho que as palavras transmutam na poesia da vida.
E por isso, peço-lhe perdão, caro leitor.
Nunca fui bom na arte de amar, talvez por essa expressão cabisbaixa para tantos sentimentos, mesmo os mais altivos e nobres.
Gosto apenas de saber-me a amar... e talvez por essa negação eu tenha tido tempo para tantos ensaios quase literários, se não angústias assoviadas na contramão do barulho da cidade.
É bom falar sozinho, baixinho, ao pé do ouvido fazer sentir a vida e sua incomunicável poesia, como um segredo depositado em um amigo faz crescer a amizade, deixo a ti, prezado leitor, esse silêncio de palavras vagarosas, de onde surgem as inevitáveis poesias.
domingo, 2 de novembro de 2008
do livro Crônica do nosso tempo
Mãe, estamos em crise
e mentimos...
acostumamo-nos ao resultado cotidiano
da existência absurda,
às horas ordinárias no rosto
das pessoas tristes.
Mãe, estamos em crise
não temos amor nem amantes
apenas são vagas as lembranças
e estamos em crise...
e há petróleo sobre o oxigênio
de nossa camada cancerígena.
Mãe, estamos em crise.
E eu estou vazio,
sem nenhuma flor pra lhe mandar.
"Solo"
Dos poetas tenho saudade
Da minha saudade, angústia
Da minha angústia, poesia.
Por Deus,
Estou só!
Assim sou: só!
E pouco a pouco mais só.
Ambiente
A meu pai
Cadê teu sabor de galhofa, teu cálice,
a presença vulgar de alguma filosofia?
Já não sei por que andam virgens as páginas
E nossas fórmulas adulteradas...
É proibido cantar,
É proibido falar.
O barco naufragou. A seca chegou.
A música parou. O tempo ruiu.
A lágrima teimou
E a casa está vazia.
És verso em branco
de saudade.
Quando eu voltar
E quando eu voltar,
as mãos brancas
com a certeza de que te amei.
O chão de ferro o corpo de ferro —
O deserto mais bonito que a gente pode ser.
Eterno
Junta tuas coisas, peculiarmente, sem força, sem dor...
Perdoa com tua cara pálida
a simplicidade do teu coração infeliz.
Hesita o amor... continua.
Silencia à falta das coisas esperadas.
Toma para ti este verso humilde
deste que tão cedo estragou as palavras
e não sendo, acredita no eterno.
Contar
Como contar-te o tempo meu amor?
E o que se fez do segundo em que te vira brincar?
Que se fez do passado
do novo e do velho
tecido de gestos
que contam entre gastas retinas a vida?
Como contar-te que o tempo não é nada?
E que sou ainda muito pobre
mas que estou trabalhando no amor
E que há dias tenho feito histórias inteiras dos instantes em que te vi?
Como contar-te que sou apenas o que em seus versos traz o mundo?
Como contar-te, meu amor
O que se fez das horas de saudade
Senão o eterno que ficou de lembrar?
Oráculo
Tu que me viste como quem não vem
entanto chegaste
a dar vontade de cantar,
mas de repleto nem falei...
Tu que me vieste como quem não vem
e trouxeste em teus braços gestos de vida ao espaço
na longa procura da mina alma infantil...
tu que me vieste como quem não vem
tens o antigo abrigo em teus afagos de mulher
e favoreces o crime e o perdão...
tu namorada última do poeta...
é por ti o meu silêncio apetecido de ternura.
O amor fotografado
O velho álbum estava repleto
de alvas fotografias
como um rio, mudo de carinho.
Triste império
A minha saudade anda em bandos
o sol iludiu-me ver, tonto...
A tua alma é um altar de pedra
na imaginação da alma do meu tédio.
O ouro da tarde caiu por dentro
E não veres é uma paisagem estúpida em eu te amar.
Ah, não saber que esta hora é um perfume disperso
do perfume achado em teus cabelos...
A minha vida era uma grande liberdade.
Passou a noite e eu não havia amanhecido.
A minha saudade é um sol na noite
E a tua alma, um tédio de ouro.
A minha crença de ti é um bobo animado
na sala do teu Império.
E há grandes ócios em andar
a olhar par si mesmo.
O meu Império é um crime cometido em tua alma...
por uma corte de imaginação achada,
E há sol na paisagem desta liberdade...
disperso... amanhecia por dentro.
O teu olhar é uma peste dispersa
que a minha alma erra a ver.
E o teu modo é eu estar solenemente ajoelhado na igreja...
o padre fez uma esfinge de Deus.
E eu caí ajoelhado no modo de te olhar...
Doido, o sol iludiu-me ver...
A tua alma é um altar de pedra
na imaginação da alma do meu Tédio.
"Do livro Crônica do nosso tempo",eu gosto muito de 'Mãe estamos em crise" e "A meu pai".
ResponderExcluirO primeiro, ainda lembro quando o tio mostrou-me =) super bem contextualizado, aí eu sempre falo "tio...esse é o meu preferido...". E o seg. é mto especial, lembra uma fase boa ne?!
Beijão =*